A Sally consegue entregar as imagens em apenas alguns minutos e estas serão posteriormente analisadas — tanto de imediato como ao longo do tempo — referenciando-as aos dados existentes do Dr. Craggs e ao cronograma dos próximos eventos de desova. “Todos estes corais vão ser isolados todos os dias durante os próximos seis meses”, explica. “Depois, vamos registar quando é que eles libertam os seus gâmetas e recuar até este momento para determinar quantos dias, semanas ou meses se passaram entre a ecografia e a desova.” Isto servirá para compreender melhor os seus ciclos reprodutivos, informação que poderá revelar-se útil em futuros programas de reprodução e restauração de corais.
Para além do evidente valor científico das ecografias, a experiência foi, por si só, inesquecível. “Passo tantas horas em ambiente subaquático, mas nunca vi o interior de um pólipo”, admite Madeline. “Apenas vi isto num livro didático — uma secção transversal de um coral. É incrível. Tem sido uma experiência tão emocionante. E que oportunidade para utilizar essa tecnologia!” Até Sally, com todos os seus anos de experiência em ecografia, ficou entusiasmada com os resultados. “Na verdade, não sabia se iríamos ver esse tipo de pormenor, nem até que ponto conseguiríamos reconhecer as estruturas. Foi tão impressionante.”
Assim que o aparelho de ecografia foi levado para dentro do edifício, ficou claro que aquele não ia ser um dia qualquer no escritório. Quando chegou uma caixa isotérmica de corais vivos, as coisas definitivamente tomaram um rumo surreal. No entanto, como se constatou, introduzir a imagiologia médica na biologia marinha pareceu ser a coisa mais natural do mundo.
“Vamos utilizar o ultrassom para examinar os corais — um pouco como um teste de gravidez”, explica o Dr. Jamie Craggs, entusiasmado, aclamado biólogo marinho e fundador da
Coral Spawning International. É um líder mundial na ciência da reprodução dos corais e foi pioneiro numa técnica que permite prever a desova dos corais, algo que, até então, tinha escapado à comunidade científica especializada em corais durante décadas. “Hoje, queremos verificar se têm óvulos e espermatozoides no seu interior e se estão a preparar-se para se reproduzirem”. Por detrás do seu entusiasmo está uma novidade mundial — explorar o comportamento reprodutivo dos corais através de ultrassons nunca foi feito antes e, de facto, ninguém na sala sabe se irá sequer funcionar.
A ele junta-se a colega bióloga de recifes de coral e cineasta,
Madeline St Clair, que, tal como o Dr. Craggs, tem estado na linha da frente dos projetos de restauração de corais em todo o mundo, incluindo através da nossa parceria com a
Nature Seychelles. Recentemente, ela deu voz
à difícil situação dos recifes
utilizando a Realidade Virtual no
Sistema Canon EOS VR. “Como cientista marinha e contadora de histórias, dedico toda a minha vida a tentar mostrar às pessoas este mundo invisível. Então, isto é mesmo emocionante — vamos dar vida a uma nova história!”
Criar as melhores condições possíveis para uma experiência deste tipo requer equipamentos de última geração e conhecimentos especializados à altura. Como era de esperar, o ecógrafo — um Canon Aplio i700 — contou com a presença de duas pessoas com um vasto conhecimento conjunto na área: Stuart Mills — Diretor da área de Ecografia na Canon Medical Systems UK e Sally Davey, especialista clínica da Canon Medical Systems UK e ecografista altamente experiente. Mesmo assim, é território completamente novo para todos. “Nunca fiz uma ecografia através de água salgada e certamente nunca fiz uma ecografia a um coral”, diz Sally, a rir. “Por isso, estou a trabalhar com base em experiência e suposições fundamentadas.”
O que corresponde exatamente à abordagem do Dr. Craggs, que se preparou cuidadosamente, tanto quanto lhe foi possível, para este dia. “Trouxemos uma variedade de corais diferentes da Austrália, das Caraíbas e da Indonésia, já que estes vão reproduzir-se em diferentes fases ao longo do ano e queremos ver como é por dentro”, explica ele. “Tradicionalmente, no caso dos corais ramificados, precisaríamos partir um ramo para determinar o estado reprodutivo. Para os corais LPS [pólipos grandes e rochosos], cortamos um determinado número deles para verificar a presença de gâmetas e deduzir quando ocorre a reprodução.” Neste cenário, e por uma questão de precisão e em conformidade com os protocolos científicos, a ecografia será verificada usando este método padrão.
Ele está cautelosamente otimista, pois os óvulos são estruturas incrivelmente minúsculas e podem ser “apenas 300 micrómetros — 0,3 milímetros”. No entanto, há um ar de confiança na sala enquanto Sally começa a trabalhar, selecionando as sondas que acredita terem a melhor chance de produzir imagens de excelente qualidade, antes de as revestir com gel condutor e envolvê-las numa bainha protetora para as proteger.
Na verdade, fazer uma ecografia é tão comum que, geralmente, nem paramos para pensar como é que elas funcionam. Basicamente, enviam ondas sonoras inofensivas de alta frequência para o seu corpo — ou para um coral, neste caso — utilizando uma sonda portátil. Estas ondas refletem-se naquilo que está a ser examinado, um pouco como um eco, e, em seguida, um software especializado de imagem converte-as em imagens em tempo real no ecrã. A razão pela qual se utiliza gel é que, embora possa parecer surpreendente, a energia sonora é transmitida com menos eficiência através do ar do que através de líquidos. “Portanto, se cobrirmos a sonda sem aplicar gel, o ar entre a sonda e a bainha impedirá que o som se propague suficientemente para ser útil.” Depois disso, a água transmitirá o som muito bem”, explica Sally.
Depois de os corais terem sido desembalados, colocados em tanques com água pouco profunda e aclimatados ao seu novo ambiente — não podemos esquecer que, afinal, são animais — a Sally entrega uma sonda ao Jamie e eles começam a trabalhar. Em poucos segundos, os três estão completamente absortos (“caramba, olha só para aquilo!”), ao identificarem rapidamente os tecidos digestivos do “estômago” de um coral. “Os óvulos desenvolvem-se junto ao filamento intestinal”, explica o Dr. Craggs. “Assim que virmos isso, sabemos que estamos na região certa.” O funcionamento interno destes corais, com apenas um milímetro de tamanho, é transmitido com um nível de detalhe extraordinário, pelo que ele consegue facilmente apontar e explicar.
Tal como acontece com qualquer tipo de experiência, especialmente quando se utiliza uma ferramenta completamente nova, a equipa precisa de tempo para compreender o que está a observar, experimentar diferentes técnicas e descobrir o que é possível fazer com a ecografia. Além disso, cada coral é diferente, pelo que determinar a melhor abordagem para cada um requer paciência e aprender a interpretar o coral de uma nova forma leva tempo. Ao longo da tarde, a equipa científica fez aquilo que faz melhor — analisou metodicamente cada amostra, ajustando a ampliação, as sondas e a abordagem, tomando nota do que via e fazendo a gravação de centenas de imagens de ecografia. “Estamos a observar características que parecem corresponder a ovócitos em desenvolvimento”, anuncia finalmente o Dr. Craggs. “Estão agrupados; têm o tamanho e a posição certos dentro do coral. No geral, um resultado encorajador.”
Enquanto os corais eram recolocados na sua caixa de proteção para a viagem de regresso a casa e o ecógrafo era limpo e arrumado, o ambiente era de grande júbilo. Afinal, não é todos os dias que um biólogo marinho tem a oportunidade de trabalhar com ecografia — e com que frequência um técnico de ecografia tem a oportunidade de ver o interior de um animal tão importante para o mundo? Mas, claro, para o Dr. Craggs, ainda havia trabalho a fazer. De volta ao laboratório, começou a analisar a enorme quantidade de imagens que Sally lhe tinha fornecido, tendo agora mais tempo para explorar exaustivamente o seu conteúdo.
Ao comparar as ecografias com o método padrão, a análise de amostras de tecido vivo, foi possível confirmar com 100% de certeza que as imagens mostravam o desenvolvimento visível de óvulos. “Do ponto de vista científico, é sempre importante realizar o máximo de verificações possível”, afirma o Dr. Craggs. “Mas agora consigo confirmar definitivamente que consigo observar o desenvolvimento do oócito [óvulo] nas ecografias — era tão claro como a luz do dia!”
À medida que as notícias se espalhavam pelas equipas, o pico de entusiasmo sentido na sala de exames voltou a repetir-se — mais um momento marcante para todos os envolvidos, cujos resultados poderão proporcionar ao Dr. Craggs e à comunidade científica um tipo de dados completamente novo com o qual trabalhar.
Reunir disciplinas para o avanço da ciência, acompanhar o surgimento de novas e importantes descobertas e utilizá-las em benefício do futuro de todas as pessoas?
Isto, como se costuma dizer, é progresso.
Acompanhe o progresso do nosso trabalho com a Coral Spawning International e a Nature Seychelles aqui na VIEW.
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